domingo, 5 de dezembro de 2010

Poesia de Adolescente


Texto escrito por um aluno da Cia. de Teatro Asa-Delta, Douglas Sampaio, 16 anos, morador da Rocinha. Não é sensacional?

eu sou um gαroto como todos os outros,
só estou vivendo diαs iguαis, de mαneirαs diferentes !
eu gosto de fika na pista, αproveitα α vidα ! :)
   pq. elα é feitα só pros vivos .
Meninoo que te encαntαα :~.
Gαrotoo que te fαscinα;
Homem que te enlouquecee.
- αquele que te fααz tão beem (♥)
Não te prometo nem α terrα, nem o céu, nem o mαr; Mαs 3 desejos q nao vc irá disperdicar (y)³
Enquanto algumas
pessoas fazem de tudo
para se tornarem marcantes,
eu hajo naturalmente e me torno
inesquecível !
Sou o fruto proibido, o cαminho pro inferno
o αtαlho pro pαrαiso,
sou teu αnjo mαlvαdo,
teu sonho αcordαdo,
sou α respostα prα tuα questαo,
sou teu desejo, todα suα ilusαo....

sábado, 23 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2

A princípio, havia comentado no Facebook que estava chocado com o trailer de Tropa de Elite 2 apresentado na tevê aberta por este conter cenas de violência nas favelas do Rio e por perceber a mobilização da platéia para prestigiar este espetáculo, refletido nas filas quilométricas nas portas dos cinemas. Há uma semana atrás, fui assistir à produção e percebi que não há muitas cenas explorando este filão. A maioria dos diálogos enfoca a burocracia e a podridão nos bastidores da polícia, da política e da segurança pública da cidade. Uma forma quase didática de mostrar que o sofrimento das comunidades pobres resulta dos interesses dos políticos de carreira e do poder do capital. Mostrou que os traficantes do Comando Vermelho, do Terceiro Comando e dos Amigos dos Amigos são ladrões de galinha perto dos milicianos e dos interesses eleitoreiros. Tocou de forma muito tímida no envolvimento da grande e da média mídia com essas questões, a gente sabe por que, né? Ta lá a logomarca da Globo Filmes estampada. Hoje andava pela Maré e vi camelôs vendendo DVDs do filme. Minha pergunta é: será que os moradores de áreas atingidas pela violência aproveitarão as informações transmitidas pelo filme para cobrar devidamente das autoridades responsáveis, nos momentos devidos (este é um momento devido!), a resolução deste problema? Será que não continuarão a fortalecer o pensamento de que a melhoria das suas condições de vida só pode resultar de uma Grande Boa Vontade Particular, situada em Brasília ou no Céu? E os espectadores de classe média, que só se enfurecem com a bandalheira porque pensam no risco de vida que correm ao sair da balada, no celular, no carro ou na vida que podem perder em qualquer esquina? É neste sentido que lanço minha crítica ao filme. Não mais pelo viés que imaginava – pela exploração e pela espetacularização do sofrimento alheio, mas por fazer um falso filme “politicamente correto”. A política, se há alguma política ali, é hierárquica, fala de cima, de um lugar potencialmente mais elevado, de onde se vê a verdade – ora, este lugar, é o lugar de onde a mídia buzina em nossos ouvidos, todos os dias. É muito divertido ver o soco que o Capitão Nascimento lança na cara de um deputado. É muito empolgante vê-lo falar dentro da Assembléia Legislativa de forma tão direta. Mas não seria tudo isto uma espetacularização de tudo aquilo a que já nos acostumamos e que engolimos todos os dias junto com nosso café da manhã e nosso jantar? Aquele soco e aquele discurso descarregam nossa revolta, mas, ao sairmos do cinema, a sensação é a de que “o inimigo agora é outro”, muito maior, e que nós não podemos enfrentá-lo. Bacana, agora todo mundo sabe que por trás dos fuzis e das balas perdidas existem homens de gravata falando em microfones ou na frente de câmeras. O filme mostrou isto. O poder da arte de tirar as pessoas do seu lugar resta menosprezado – menosprezada a capacidade do cinema de estimular revoluções...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

5 X Favela

Contrariamente ao que eu esperava, o filme 5 X Favela, a que só fui assistir ontem, falou-me de uma forma especial sobre o universo das comunidades do Rio de Janeiro, universo este em que tenho me embrenhado há 05 anos e que ainda me parece tão misterioso e especial quanto a primeira vez em que eu fui convidado a invadi-lo.
Estamos saturados de produção cultural de baixa qualidade realizada nestes locais ou fazendo referência a eles. Não suportamos mais que as populações de comunidades e favelas sejam representadas a partir de uma relação rasa com a marginalidade e com um modo de vida pobremente ilustrado como sofrido, simples e festivo. Estes fatores têm justificado muitas vezes que projetos sem a menor consistência sejam implementados nestas “áreas de risco”, destinando-se a catequizar a barbárie ou a acolher os desamparados sob os braços. Tais projetos geram resultados duvidáveis (quando os geram) e muitas vezes se dissolvem ao longo da sua realização, o que me parece ser um resultado de ações frágeis baseadas em concepções errôneas. Deste modo, esperava no referido filme um pouquinho de “mais do mesmo”. Mas não foi por aí. Apesar de ser uma produção da Globo Filmes e a gente saber que ele vai de carona no filão de explorar as favelas para ganhar louros e ouros, a proposta torna-se subversiva ao integrar moradores de comunidades “de risco” que trazem com eles a simbologia e a energia dos mais fracos e deixam a sua cultura falar através de seus trejeitos, de suas falas, de seus silêncios. O fragmento dirigido pelo Cadu, morador da Maré, anda colado no estereótipo, correndo o risco de multiplicar um pouco mais o lugar comum sobre as fronteiras entre comunidades e sobre o modo de ser da sua juventude. Seus atores, especialmente os guris que têm menor destaque, tomam a cena com sua espontaneidade, permitindo que a favela passe para primeiro plano, abraçando o fio condutor da história. O desfecho do episódio apresenta um fato que a gente percebe no dia-a-dia das comunidades e revela que as barreiras que dividem as periferias são mais imaginárias do que reais e que desfazê-las depende menos de fuzis do que de pipas, de bailes, de conversas. Não se trata de lirismo ingênuo, de ignorar a brutalidade da violência nestes territórios, mas talvez de pensar que há um caminho para a paz que não passa necessariamente pelos Caveirões e pelas Tropas de Elite. Há um trabalho político a ser feito – micro-político, diplomático, abraçando meninos e meninas, jovens moradores, que são os principais responsáveis pela configuração futura destas comunidades. Por último, não posso deixar de destacar o belíssimo fragmento dirigido por Luciano Vidigal, com um roteiro sensacional (produzido pela galera do Afroreggae de Parada de Lucas) – a atuação sombria e difícil do Samuel Costa Santos, o surpreendente do enredo, o inusitado do violino, os flashbacks... É uma pequena obra de arte no interior daquele todo, onde a violência – apesar de ser o fio condutor – não consegue ser mais eloqüente do que o carinho, o afeto, o humano (com todo o difícil que é ser humano). Diferentemente de outras produções que estréiam por aí...

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Em seu novo filme, Christopher Nolan está mais para Spielberg do que para Kubrick


Inception não faz jus à publicidade em torno do seu lançamento no Brasil, certamente ecoando sua recepção no exterior, anunciando se tratar de um filme onde se dá uma combinação interessante entre cinema de arte e entretenimento. A mega produção de Christopher Nolan tem o mérito indubitável de forjar um universo de som e luz que mantém o espectador desperto em seu assento, flanando por belas paisagens e por divertidas histórias. A ingestão da pipoca fica em segundo plano já que, desde o início, percebe-se a pretensa complexidade do roteiro e a sucessão acelerada de suas peripécias. O entretenimento é, deste modo, garantido. Não há, entretanto, nada na produção que permita considerá-la cinema de arte. Sua representação de tempo e espaço é absolutamente banal – o que espanta, quando se considera que a principal matéria do filme são os sonhos. Nada de especial na interpretação dos personagens – muito do cenho franzido de Leonardo DiCaprio e um Michael Caine interessante, que promete, mas que não desempenha nenhuma função relevante. E o mais sério: nada na ideologia do filme que refrigere nossas noções pré-estabelecidas e que alimente sentimentos de inovação e/ou de liberdade. Toda a ação do filme é movida pela ambição desmedida de um empresário japonês e pela busca de um homem pelos filhos – em nenhum momento, estes objetivos são questionáveis, comprovando a tendência capital dos blockbusters: reafirmar velhos valores arraigados em nossa sociedade ocidental como família, pátria, trabalho e dinheiro.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

PROVA DE MORTE


Death Proof é o filme dirigido por Quentin Tarantino em 2007, mas que só apareceu nos cinemas brasileiros recentemente, 01 ano após a exibição de Bastardos Inglórios, de 2009. Tarantino me parece ter chegado ao apogeu de um estilo muito próprio, onde a imperfeição é uma meta e onde o politicamente errado é um estandarte. Colidem deste modo: um roteiro absolutamente estúpido e trivial e uma produção com um preciosismo técnico absurdo. Nunca o mal-feito foi antes tão elaborado e tantos recursos são convidados a expressar absolutamente nada. O código de ética que orienta a ira dos personagens de Kill Bill, representado por personagens como Pai Mae e pelos emblemáticos duelos do Japão e da seqüência final do filme, não têm qualquer valor aqui. Death Proof é mais do que a exploração da violência como linguagem, é o reconhecimento de um impasse pós-moderno: a ausência de valores morais e a falta de sentimentos de culpa e de necessidade com relação a esta falta.

quarta-feira, 9 de junho de 2010



Nossa história começa como Teatro Adolescentro, referência a este importante espaço para a juventude da Rocinha, onde os adolescentes continuam a oferecer iniciação teatral a este publico. E é com este nome que a gente apareceu na coluna do Zuenir do O Globo, uma honra para nós.

sábado, 10 de abril de 2010


Meu antigo grupo, a Cia Asa-Delta, composto atualmente por 04 ou 06 adolescentes e jovens da Rocinha (bairro do Rio que tem a média de 2 salários mínimos por trabalhador)foi procurado pelo Rotary Club de São Conrado (bairro do Rio que tem a média de 38 salários mínimos por trabalhador). O pessoal do asfalto quer da gente uma peça sobre um tema específico para ser apresentado em escolas da região. É uma nova oportunidade de fazer o que a gente sabe bem: falar de assuntos da ordem do dia para crianças e adolescentes que só querem saber de funk, msn e sei lá que mais. Algo que muitos adultos desejam, mas que não sabem como. Morri de orgulho ao saber que meus jovens tinham ido a uma reunião do Rotary e dialogado sobre a possibilidade de fazer este trabalho. Morri de orgulho quando me ligaram, me pedindo ajuda para colocar um preço em seu trabalho. Morri de orgulho quando me pediram para voltar e para trabalhar com eles. Sensação de que meu tempo na Rocinha ainda não acabou. Graças a deus! Bons trabalhos vêm por aí, eu sinto.



também a oportunidade para que eu voltasse. Sabia que não daria para ficar muito tempo longe.

Foto: Thiago Ripper
A Via Sacra da Rocinha é para mim o maior expoente da estética da favela. Produzida e encenada por moradores, tem o poder de atrair milhares de espectadores, entre gente da comunidade e gente de fora. O morro fica vaidoso neste dia porque sua grandiosidade é percorrida por pessoas que nunca se aventuram por ali e uma das expressões mais recorrentes é: "poxa, como essa favela é grande!", vinda de diferentes direções. Eu tenho a grande honra de me sentir em casa neste lugar, de abraçar a velha e a jovem guarda e ter uma grande satisfação em ver a comunidade em foco. É um mundaréu de jovens atores, muitos deles já tendo passado pelas minhas salas de ensaio. Conheço seus sonhos de fama e sei a dimensão de seus talentos. Encontro um fotógrafo amigo meu e uma artista e produtora que conheci recentemente, gente de outras paradas, o que me leva a crer que este é um dia especial porque novos olhares recaem sobre estes meninos, meninas, mulheres e homens, personagens bíblicos que despontam em sacadas, becos, portas de botecos, bocas de fumo. Em um momento iluminado, Maria Madalena é apedrejada diante de uma porta de comércio pixada: ADA É NÓS! Quantas vezes, durante o ano, essa cena deve se repetir ali, e em outros pontos da favela, sem que ninguém note. O som é tão ruim que a gente não consegue ouvir nada que os atores falam. Mesmo assim o carro de som corre ligeiro pela Estrada da Gávea e a multidão corre atrás, numa mistura de carnaval de Salvador com teatro medieval. O grande símbolo da noite, o Crucificado, é um símbolo vazio - este não é um espetáculo de fé. A grande estrela é a Rocinha, puta velha, de pernas arreganhadas, com sua prole morena, sua beleza e seu horror, deflorada por milhões. As encenações da paixão de Cristo deviam levar os fiéis às lágrimas, em outros tempos, em outras terras. Aqui, agora, ela me faz pensar na morte de deus, na satisfação imediata dos desejos e na esperança de símbolos e de rituais que ressuscitem a crença em alguma coisa.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Dei um tempo

Eu dei um tempo com a Cia. Asa-Delta. Não estou mais subindo a Rocinha. Não coordeno mais o grupo. Não ensaio mais. Levei muito tempo para tomar esta atitude porque sempre soube que sofreria muito com ela. Sempre soube também que a minha ausência é uma ameaça para a existência do grupo. Por outro lado, tenho a suspeita (e posso estar sendo ingênuo, mas como fazer teatro sem ser um pouco ingênuo?) de que, se os jovens e adolescentes se mantiverem unidos, em atividade, se tornarem-se verdadeiros atores e mostrarem a mim, à comunidade e à cidade que querem mesmo fazer teatro, que têm algo para oferecer ao público, que são capazes de se organizar, acredito que, se isso ocorrer, então eles terão dado um grande passo e não importa que o teatro que eles fizerem seja algo rudimentar, estereotipado e caótico, ele será um produto mais legítimo e, talvez, a partir daí um grande trabalho possa ser feito. Tenho este sonho de voltar um dia aos ensaios, a pedido dos jovens, a convite dos jovens, de voltar porque eles acreditam que existe algo para ser feito, algo entre o desejo deles e a minha vocação. Deixo o grupo num momento em que conseguíamos fazer ensaios cada vez mais intensos e inspirados. Depois de uma oficina no Seminário Grotowski, ano passado, voltei a acreditar no poder da disciplina e da concentração para o trabalho do ator e vinha batendo forte na tecla da respiração, da escuta, de construir um clima “quente” para que o trabalho criativo pudesse de fato acontecer. Largo esboçada uma das cenas mais fortes e harmoniosas que já produzimos – a do sepultamento de Etéocles, no início de Antígona. Em outros tempos, o meu desejo de terminar esta cena, de mostrar este espetáculo, me faria continuar apesar de todas as dificuldades, apesar dos atores que faltam aos ensaios para cuidar de outros assuntos. Talvez por isso todas as minhas experiências como encenador tenham ficado aquém das expectativas (pelas concessões) e o teatro tenha continuado a se mostrar uma aventura impossível de ser vivida. Escolhi agir com maior frieza desta vez, contrariando a minha satisfação momentânea, e buscando fazer deste trabalho menos um lazer e mais um projeto. Neste momento, cabe a alguns dos seus beneficiários mais diretos decidir se ele terá continuidade.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Sobre um espetáculo de pessoas que amo (1/2)

A primeira impressão que tenho com relação a teatro remonta ao tempo em que eu nem sabia o que era teatro. Eu só conhecia televisão e o teatro era, para mim, um primo pobre e sem graça das novelas das duas, das seis, das sete e das oito. Um dia enfim me pediram que escrevesse uma peça (eu escrevia muito bem). Pensei: tudo bem, vá lá, mas é só um treino para o que eu vou fazer depois, quando estiver escrevendo para a televisão. O teatro era uma coisa rústica e grosseira, suja, maltrapilha – perto do que podia ser a tevê ou o cinema. Eu acho que a beleza do teatro para mim continua sendo essa coisa reles que um dia me encontrou pelo caminho. E acho que, todas as vezes que vejo uma produção muito sofisticada, eu fico querendo compará-la com aquela novela pobre e provinciana que eu ensaiava nas garagens e apresentava nos porões e fundos de quintais de Minas (no fundo, gosto mesmo daquelas peças). O teatro fica sendo para mim então um sinônimo do esforço desesperado para se expressar a qualquer custo, independente dos meios que se tem à mão. O que me fascina no teatro é a disposição das criaturas para viverem o imaginário, acreditando nele, ou para viverem a própria vida de uma forma imaginariamente intensa, fazer a vida ser justa com o sonho. Em determinados momentos, muito raros, nos meus ensaios (mais raro ainda nos dos outros), eu vejo essa coisa bonita que é o teatro passar. Desse esforço imenso de músculos, neurônios e sei lá o que mais, eu vejo aparecer um fantasma grotesco, miserável, mas que fala com uma voz límpida, uma voz sem ruído, que comunica. É meio que uma entidade mesmo, nasce do nosso esforço doido, do desejo de fazer Pulp Fiction’s com papelão e grude.

Eu teço este pequeno prólogo para dizer que não existe crítica imparcial, que tudo parte de uma impressão (como não poderia deixar de ser) absolutamente pessoal, baseada em hábitos, crenças, afinidades e bizarrices. E também que o criticado deve se sentir livre para ignorar completamente o que foi dito, embora eu duvide que ele consiga. Kkkkkkkkkkkkkkkk. Também não me agrada esta posição de fazedor de texto, de dono da palavra – não gosto da arrogância. Não quero ser o menino bonzinho que se senta para agradar as amigas, ou talvez para que elas se surpreendam com a inteligência dele e façam elogios que vão lhe inflar o ego. Mas gosto da idéia de generosidade. Quando a gente vê que não vai ser nenhum Picasso, percebe que pode relaxar um pouco e dar fluxo às idéias juntos – já que elas não nos pertencem mesmo.

Ao dizer que não gostei do espetáculo, estou tentando fazer uma crítica inteira e racional (na medida do possível), ao invés de dizer o que achei de cada pedaço, coisa muito fácil de se fazer, mas que não leva a gente muito longe da bajulação. O fato é que fiquei extremamente emocionado em diversos momentos da peça – momentos rápidos e fugazes, em que me sensibilizou o conjunto de esforços ali reunidos, a disponibilidade e o nada que sabia que iria sentir logo mais, ao fim do espetáculo. Eu me perguntei até que ponto a minha emoção não deriva do fato de eu fazer parte da história daquelas pessoas que estavam ali na cena, de conhecê-las. E acho que muitos efeitos dos espetáculos são só para amigos. O que me parece ser um problema de explorar a própria biografia em cena e não torna-la um convite mais interessante (e desafiador) para o espectador (o espectador desconhecido, estrangeiro). É como se vocês afagassem o peixinho dourado que mora no fundo de suas almas (ou dos seus egos), sem no entanto, deixar que o espectador o veja, ou que o pegue. Acho a peça um pouco egoísta, neste sentido. Talvez seja uma impressão minha e vocês saberão, quando ouvirem comentários de desconhecidos.A peça, a meu ver, oscila o tempo todo entre o espontaneísmo e o formalismo, com a vitória final deste último. É uma peça bem feita, correta, bem comportada. As atrizes estavam deslumbrantes – contidas, frias, auto-centradas. (Provocador e irresponsável): Haveria um receio contido de levá-las um pouco além? Um medo de perder a mão e fazer um mau espetáculo? Eu acho que elas desfilariam lindamente para os infernos. Estarei sendo abstrato demais com relação a uma arte que é tão concreta? Como fazer isto que sugiro? Não sei, mas adoraria ver.

Sobre um espetáculo de pessoas que amo (2/2)

Espetáculo bonito, mas por ser tão fixado às imagens incomoda um pouco o fato de estabelecer uma relação tão conservadora com o espaço que ocupa. Refiro-me à frontalidade, obsessivamente explorada, mas que não consegue desviar nossa atenção por tempo suficiente das vigas do telhado, da profundidade do galpão, das caixas de som dispostas no fundo da cena que dialogam mal com a projeção de uma paisagem parisiense. Como se perder na pretensa câmera lenta se aquelas caixas o tempo todo nos lembram da falsidade (da artificialidade) de tudo aquilo?

A primeira cena é muito arriscada. A idéia de videoclipe (música bonita, movimentos lentos, encontros, desencontros) oscila muito rapidamente entre o belo e o cafona e eu temo que isto não seja intencional. Como leigo, eu entendo a câmera lenta como uma técnica capaz de dissecar os contornos dos objetos e a duração real dos eventos, ou seja, de combater o estereótipo e a representação. Então por que contornos tão precisos e imagens tão prosaicas? Eu percebo esta cena, por um lado, como um impulso em direção à pintura monocromática; por outro, como um impulso em direção aos comerciais de desodorante (ou à primeira cena do filme Closer). Eu desejaria antes ver a coisa decolar em direção à primeira referência (a pintura monocromática, o não-figurativismo). Ou, talvez, em direção à segunda (o comercial de desodorante), com mais crueldade. Contra minha vontade, estou criticando por partes – é uma tendência difícil de burlar.

Não sei mais o que dizer. Queria ter visto menos belas imagens e mais mistérios. O achado das cartas é, sem dúvidas, interessantíssimo. Tão interessante que mereceria engolir o espetáculo todo, uma vez que abre a porta para que a vida (o que realmente importa nela) entre na sala. Queria ter pensado menos em Bob Wilson e outros figurões das artes e ouvido com mais pureza a voz tremida de uma diretora jovem, ansiosa e insegura, cheia de ideais e de questões. Mas novamente estou de volta com minhas expectativas e também existe um teatro enorme que se faz por aí que é aquele que não dá a mínima para mim.