Gosto de pensar em artistas que sejam inquietos e extremamente originais, como Leandro Tick e Bruno Zagri. Os dois me fazem lembrar que a arte é uma dimensão do ser humano menos limitada a museus, a escolas de arte, a centros culturais e mesmo aos rótulos e aos códigos que separam a escultura da fotografia e da pintura, as artes visuais do teatro. No caso dos dois, ser artista é uma opção radical. Primeiro porque eles rompem com um primeiro condicionamento histórico que diz que aquele que nasce na favela está destinado às tarefas brutas, subordinadas e repetitivas; em seguida, porque, enquanto artistas, não se limitam a repetir técnicas e estéticas e olham o mundo ao redor como o seu material de trabalho. A arte dos dois vai além de se tornar exímios pianistas, ou excelente pintores, de fabricarem filmes bem feitos, de fazerem peças de teatro que se parecem com teatro “de verdade”. Zagri e Tick percebem que dominar uma técnica é uma questão de indústria ou de artesanato e que tem pouca ou nenhuma relação com a arte.
Ser artista, no caso dos dois, é dialogar de uma forma inesperada com a realidade, é fazer a realidade maleável, ou pelo menos, leve como um sonho. Isto é o que me diz uma latinha de tinta pintada de prata que Tick ornou com duas asinhas e botou para viajar pelo mundo. Latinha que já se fez aparecer nos quatro cantos do mundo, como provam as fotografias. Inicialmente, era levada por um amigo do artista e recentemente foi levada por ele mesmo, em viagem à França e à Tailândia. Quando está em casa, na Ladeira dos Tabajaras, junto deste graffiteiro de 26 anos, formado em serigrafia pelo SENAI, a latinha mora em uma gaiola que, é claro, fica sempre de portas abertas. Na nossa Mostra de Artes das Favelas, a latinha se exibia ao lado de suas fotos tiradas através dos continentes.
O que é a arte dele? A escultura da lata? As fotografias em centros turísticos internacionais? Não. Sua arte é um gesto de inteligência e de liberdade, que rompe alguns limites do permitido e do esperado. Assim também Bruno Zagri, morador de Manguinhos, é autor de obras interessantes e inusitadas. Uma delas, a experiência que teve, quando morador do Parque União, no Complexo da Maré: transformou a cozinha, o banheiro e a sala da casa em que morava numa galeria de artes. Mas uma galeria de artes na Maré? Seu objetivo, segundo o próprio, era de “desconstruir esses espaços imponentes e excludentes que são as galerias, onde as classes menos
favorecidas geralmente não freqüentam”. Bruno tem o sonho de poder retomar
essa iniciativa em um espaço maior e estruturado futuramente.
Diante de artistas como estes, nós, produtores da I Mostra de Artes de Favelas, nos questionamos em diversos momentos se existe de fato uma arte que pode ser chamada “de favela”.
A idéia do Projeto surgiu diante da finalização do Projovem Trabalhador Arte e Cultura, uma ação da Secretaria Municipal de Trabalho e Emprego em parceria com a Ação Comunitária do Brasil, que tive a oportunidade de coordenar no primeiro semestre de 2010. Durante seis meses, buscamos qualificar 400 jovens de áreas como Maré, Cordovil, Santa Tereza e Campo Grande nas funções de auxiliar de produção cultural, assistente de figurinos e cenografia, DJ/MC, operador de câmera de vídeo. Se digo “buscamos” é porque foi bastante complexo encontrar profissionais inseridos no mercado cultural que tivessem interesse e disponibilidade de se embrenharem em direção a Cordovil ou a Campo Grande para capacitar estes jovens. Considerando que a remuneração oferecida era bastante simplória, esperávamos que estas pessoas se sentissem motivadas a trabalhar inspiradas por suprir a demanda por mão de obra qualificada neste mercado e em suas próprias produções, também pela causa social, já que é uma questão do dia, além do interesse (que se espera vívido em um artista) por embrenhar-se em novos territórios. Isto foi um problema, mas que felizmente suprimos com artistas e produtores iniciantes, bastante abertos a proposta, e que certamente fizeram a diferença na vida daqueles jovens. A maior parte destes profissionais estava ainda se graduando ou tinha se graduado recentemente, quando não eram moradores destas mesmas ou de outras comunidades. Neste último caso, tais educadores repetiram ou inspiraram o itinerário de seus educandos, já que muitos dos jovens capacitados, ainda que encontrem dificuldades para desenvolver sua arte como gostariam, são multiplicadores de todo o conhecimento que adquirem, são aplicadores diretos de seus insights, de modo que capacitar um jovem de baixa renda significa, muitas vezes, ter o seu efeito dezenas de vezes potencializado.
Exemplar o caso de Leonardo Brasil, ou Mano Brasil, como ele prefere ser chamado. Morador de Urucânia, em Santa Cruz, trabalha como educador de crianças e jovens não apenas como uma forma de ganhar o sustento (até porque atualmente só trabalha como voluntário), mas também de fazer a diferença, promovendo o contato de indivíduos menos favorecidos com diferentes formas de expressão e comunicação – hip-hop, flauta doce, teatro são algumas das suas habilidades. Tais formas de expressão são também empregadas, durante uma outra atividade, aquela com que Brasil paga suas contas: vendedor de balas nos trens que circulam pelos subúrbios do Rio de Janeiro. Sim, porque os moradores da periferia tem uma relação muito especial com os trens. Lembro-me de uma ocasião em que, por um atraso de repasse dos recursos do projeto, ficamos impossibilitados de disponibilizar o vale-transporte para os jovens freqüentarem o curso. Brasil me abordou certa vez num corredor para perguntar sobre este benefício. Para ele, não fazia falta pois, segundo ele, pulava o muro do trem e garantia sua freqüência nas aulas. A sua preocupação era com as meninas, que não se sentiam encorajadas a fazer o mesmo. Certa vez, perguntei aos jovens da produção do evento qual artista e que tipo de arte eles tinham como referência. Brasil prontamente retirou um exemplar de “1984” do escritor inglês George Orwell dizendo que toda arte, para ele, deve ser de crítica e transformação social. Acho que daí a minha empatia por ele. O livro havia sido emprestado pelo “playboy”, como ele chamava o filho da patroa de sua mãe.
Brasil foi quem batizou o coletivo que constituímos para produzir a I Mostra de Artes das Favelas. Não posso deixar de citar outros jovens de extremo talento, ética e força que também integraram esta ação: Daniele Braga, moradora da Vila Vintém, formada como produtora pelo SENAC e atualmente empregada em uma concessionária de automóveis, foi o meu braço direito na organização e no planejamento do evento; Tigo Conexão Penetra, que além de ser o produtor mais apaixonado da Mostra, responsável por trazer vários artistas, também expôs seus trabalhos como artista plástico e deu canja de hip-hop; Ademir Lamego, poeta, ator e músico, que apesar de morar em Santa Cruz, era o primeiro a chegar a cada encontro; Edenize Silva, sempre muito preocupada em fazer representar os artistas da sua Maré; Milena Manfredini, que trouxe a Baixada Fluminense para o evento e se encarregou particularmente da parte musical que fechou a Mostra, à 1h da manhã; Romildo Jagunço, um companheiro para todos os momentos; Alex, que garantia o almoço da galera em todos os encontros.
O meu objetivo ao propor o Projeto Mostra de Artes das Favelas ao Edital Interações Estéticas foi proporcionar uma experiência prática aos egressos do Projovem porque, apesar de procurarmos as produtoras e empresas artísticas desde o início do projeto, estas não se mostraram interessadas em receber nossos jovens e proporcionar estágios, contratação, treinamento, ou coisa do tipo. Ainda que se dê o deslumbre pela temática da favela nos filmes e na indústria da música, este mercado não vê com bons olhos a chegada de profissionais destas áreas para o setor. Enegrecer o mercado cultural da zona sul não é uma das tarefas mais fáceis. Ainda que a cidade seja mais conhecida globalmente por sua cor escura, ter determinados gostos, preferências, inclinações, talentos, atuar em determinadas ocupações profissionais, já nos disse Bourdieu, é o que garante que uma classe se distinga de outra e sustente os seus privilégios.
Ainda que tenhamos achado a experiência do Projovem esplêndida, especialmente pela gente talentosa que conseguimos reunir, sentimos falta de um esforço em uma esfera maior, por exemplo, numa integração entre a pasta do trabalho e a pasta da cultura, nos níveis municipal, estadual e federal, já que a maior parte daquelas produtoras e empresas que fecharam as portas para nós são financiadas com dinheiro público.
Talvez, a partir do fato acima, fique mais fácil entender a posição do artista plástico Eduardo Frazão que, morador do Complexo da Maré, preferia não se identificar como tal. Ressentido contra a discriminação incidente sobre o local, Frazão se mostra bastante irritado com a arte que tem como tema a favela. Ele, que já teve seus desenhos roubados por algumas griffes de moda da cidade, considera favela um tema esgotado e desconversa rápido quando puxamos o tema. Também pode ser um sintoma deste processo o fato de que os produtores do evento, o coletivo Becos e Vielas Produções, formado por egressos do Projovem, não permitiu que incluíssemos o chamado Funk Proibidão dentre as atrações da programação. Este que me parece, sem julgamentos morais, uma das expressões mais originas e poderosas das comunidades, foi excluída por estes jovens que, moradores de comunidade, incomodam-se ao ser vinculados a letras expressas em português incorreto, fazendo apologia à criminalidade e ao sexo indiscriminado.
Uma outra forma de arte poderosa das comunidades que foi excluída do evento, não porque quiséssemos, mas porque os artistas procurados recusaram-se a participar, foi a vertente gospel. Recusaram-se, sem muitas explicações, mas a nosso ver foi porque não garantimos exclusividade. Acredito que os evangélicos não gostariam de dividir o palco com outros artistas, muito menos se estes fizessem referência a possíveis outros deuses.
Cerca de 50 artistas, grupos e produtores ligados ao contexto das favelas participaram do evento, realizado no Ponto de Cultura As Novas Ondas da Maré, com o apoio do Prêmio Interações Estéticas da Funarte. Parece injusto falar de uns e não citar outros, mas como defender a força e a importância destes sujeitos se não tomar alguns deles como referência?
Assim acho importante mencionar o grupo de dança Kina Mutembua. Formado maiormente por homens capoeiristas, bailarinos e percussionistas, tem uma linguagem mais original do que muitas companhias de dança consagradas. O acabamento técnico de seus artistas também não deixa nada a dever. Formado por moradores do Conjunto Habitacional de Cidade Alta, em Cordovil, sobrevive há nove anos com o suporte da Ação Comunitária do Brasil, organização que busca fomentar o desenvolvimento do grupo, inscrevendo-o permanentemente e sem sucesso em editais de financiamento. Com um espetáculo novo recém composto, o grupo vive a ameaça permanente de se desestruturar, pois, se em seu início, foi constituído por adolescentes, hoje abriga pais de família que insistem em obter renda com aquilo que sabem fazer melhor. A experiência é um sucesso tamanho que hoje os seus artistas a multiplicam com muito junto a menores em situação de conflito com a lei, cumprindo medidas de privação de liberdade. Eles são sempre convidados a se apresentar em solenidades, quando se trata de mostrar como a cultura e a arte podem ser passaportes para a cidadania. Curiosamente, são os primeiros a serem postos de lado quando se trata de distribuir os recursos do incentivo em cultura. Muito semelhante ao que ocorre com o Teatro da Laje, da Vila Cruzeiro, grupo que tem uma atividade continuada de 09 anos e que só sobrevive por teimosia e talento dos jovens e do seu diretor, Veríssimo Júnior. Nem toda a visibilidade que ganhou aquela comunidade, nos últimos tempos, foi suficiente para que o grupo conquistasse o sonho de um patrocínio para suas atividades.
Também gostaria de mencionar o trabalho do fotógrafo Jucemar Alves. Morador da Maré, formou-se pela Escola de Comunicação e Crítica, da ONG Observatório das Favelas. Dentre alguns dos excelentes profissionais formados por esta instituição, o trabalho de Jucemar me parece interessante porque ele foge do viés fortemente político que caracteriza a maior parte dos trabalhos fomentados pelo Observatório e apesar de enveredar por um caminho cheio de clichês e de apelos, seu trabalho tem um caráter bastante autoral. Ele fotografa sonhos de beleza de moradoras de comunidades do Rio. Há um apelo sensual incrível em seus trabalhos, posturas e gestuais que lembram revistas eróticas e calendários de oficinas mecânicas, mas a favela é uma das ambientações preferidas e acende-se, expressiva, sempre se recusando à função de pano de fundo, de cenário. Devo fazer jus ainda à qualidade de seus enquadramentos, do seu uso da luz, de um rigor extremo que quem já fotografou com ele sabe dizer. O talento de Jucemar atualmente é desperdiçado na função de segurança de hotel, já que não consegue pagar as contas enquanto acumula os atributos de artista e de morador do Complexo da Maré.
Conforme apontei acima, o título do Projeto Mostra de Artes das Favelas passou a me incomodar um pouco, durante a produção do evento, incômodo este que transmiti à minha equipe. Visitamos diversas comunidades da cidade, assistimos aos processos destes grupos e artistas junto aos seus territórios, tivemos debates frutíferos. No entanto, a única coisa que parecia comum aos diversos grupos eram características externas às obras de arte, como a dificuldade extrema de continuidade, o isolamento, a dependência de líderes (espécies de mártires dedicando seus recursos, seus anos de vida, em nome de um projeto com ares de impossível). Tais características são também comuns a artistas de classe média, conforme manifestado por alguém, durante um dos debates promovidos no evento, questionando o direcionamento excessivo de recursos da cultura para a população de baixa renda. Entretanto, no caso das favelas, aos obstáculos da empreitada artística somam-se os obstáculos ao florescimento da vida mesmo, tais como a baixa e rudimentar escolaridade da maioria, o cerceamento da liberdade pelo tráfico e pela polícia, os serviços sociais básicos renegados, a necessidade de sustentar as famílias, etc. A dificuldade para que esta arte seja reconhecida como algo além de folclore é a própria dificuldade e desinteresse de promover a igualdade social. A despeito de tudo isso, as experiências se multiplicam. O sonho da arte vem suprir uma necessidade orgânica que as escolas têm falhado em perceber e assumir. Não por acaso um dos primeiros textos estudados por nós em nossas reuniões de planejamento foi “O teatro e a cultura”, de Artaud, em que o louco genial francês clama por uma arte que seja capaz de salvar o indivíduo da fome. Ora, esta arte das comunidades que se mantém, a despeito da fome, deve ter algo a nos dizer a este respeito, seja ela o clamor dos evangélicos, o estrondo dos funks mais obscenos, as fotos eróticas do Jucemar. Olhando o vídeo de Mano Brasil trabalhando com crianças de uma escola pública, alguém tem dúvida de que estes atores sociais nas escolas são a solução para o problema da educação no Brasil? Mas é claro, há quem prefira ver estes jovens preparando argamassa, servindo jantares, carregando caixotes de feira ou mesmo trazendo presentinhos entorpecentes para a burguesia. Eu, particularmente, acho que, ao confinarmos os artistas das favelas a estas funções estúpidas estamos privando a sociedade de soluções originais para alguns de seus problemas mais graves.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
domingo, 5 de dezembro de 2010
Poesia de Adolescente

Texto escrito por um aluno da Cia. de Teatro Asa-Delta, Douglas Sampaio, 16 anos, morador da Rocinha. Não é sensacional?
eu sou um gαroto como todos os outros,
só estou vivendo diαs iguαis, de mαneirαs diferentes !
eu gosto de fika na pista, αproveitα α vidα ! :)
pq. elα é feitα só pros vivos .
Meninoo que te encαntαα :~.
Gαrotoo que te fαscinα;
Homem que te enlouquecee.
- αquele que te fααz tão beem (♥)
Não te prometo nem α terrα, nem o céu, nem o mαr; Mαs 3 desejos q nao vc irá disperdicar (y)³
Enquanto algumas
pessoas fazem de tudo
para se tornarem marcantes,
eu hajo naturalmente e me torno
inesquecível !
Sou o fruto proibido, o cαminho pro inferno
o αtαlho pro pαrαiso,
sou teu αnjo mαlvαdo,
teu sonho αcordαdo,
sou α respostα prα tuα questαo,
sou teu desejo, todα suα ilusαo....
sábado, 23 de outubro de 2010
Tropa de Elite 2
A princípio, havia comentado no Facebook que estava chocado com o trailer de Tropa de Elite 2 apresentado na tevê aberta por este conter cenas de violência nas favelas do Rio e por perceber a mobilização da platéia para prestigiar este espetáculo, refletido nas filas quilométricas nas portas dos cinemas. Há uma semana atrás, fui assistir à produção e percebi que não há muitas cenas explorando este filão. A maioria dos diálogos enfoca a burocracia e a podridão nos bastidores da polícia, da política e da segurança pública da cidade. Uma forma quase didática de mostrar que o sofrimento das comunidades pobres resulta dos interesses dos políticos de carreira e do poder do capital. Mostrou que os traficantes do Comando Vermelho, do Terceiro Comando e dos Amigos dos Amigos são ladrões de galinha perto dos milicianos e dos interesses eleitoreiros. Tocou de forma muito tímida no envolvimento da grande e da média mídia com essas questões, a gente sabe por que, né? Ta lá a logomarca da Globo Filmes estampada. Hoje andava pela Maré e vi camelôs vendendo DVDs do filme. Minha pergunta é: será que os moradores de áreas atingidas pela violência aproveitarão as informações transmitidas pelo filme para cobrar devidamente das autoridades responsáveis, nos momentos devidos (este é um momento devido!), a resolução deste problema? Será que não continuarão a fortalecer o pensamento de que a melhoria das suas condições de vida só pode resultar de uma Grande Boa Vontade Particular, situada em Brasília ou no Céu? E os espectadores de classe média, que só se enfurecem com a bandalheira porque pensam no risco de vida que correm ao sair da balada, no celular, no carro ou na vida que podem perder em qualquer esquina? É neste sentido que lanço minha crítica ao filme. Não mais pelo viés que imaginava – pela exploração e pela espetacularização do sofrimento alheio, mas por fazer um falso filme “politicamente correto”. A política, se há alguma política ali, é hierárquica, fala de cima, de um lugar potencialmente mais elevado, de onde se vê a verdade – ora, este lugar, é o lugar de onde a mídia buzina em nossos ouvidos, todos os dias. É muito divertido ver o soco que o Capitão Nascimento lança na cara de um deputado. É muito empolgante vê-lo falar dentro da Assembléia Legislativa de forma tão direta. Mas não seria tudo isto uma espetacularização de tudo aquilo a que já nos acostumamos e que engolimos todos os dias junto com nosso café da manhã e nosso jantar? Aquele soco e aquele discurso descarregam nossa revolta, mas, ao sairmos do cinema, a sensação é a de que “o inimigo agora é outro”, muito maior, e que nós não podemos enfrentá-lo. Bacana, agora todo mundo sabe que por trás dos fuzis e das balas perdidas existem homens de gravata falando em microfones ou na frente de câmeras. O filme mostrou isto. O poder da arte de tirar as pessoas do seu lugar resta menosprezado – menosprezada a capacidade do cinema de estimular revoluções...
terça-feira, 12 de outubro de 2010
5 X Favela
Contrariamente ao que eu esperava, o filme 5 X Favela, a que só fui assistir ontem, falou-me de uma forma especial sobre o universo das comunidades do Rio de Janeiro, universo este em que tenho me embrenhado há 05 anos e que ainda me parece tão misterioso e especial quanto a primeira vez em que eu fui convidado a invadi-lo.
Estamos saturados de produção cultural de baixa qualidade realizada nestes locais ou fazendo referência a eles. Não suportamos mais que as populações de comunidades e favelas sejam representadas a partir de uma relação rasa com a marginalidade e com um modo de vida pobremente ilustrado como sofrido, simples e festivo. Estes fatores têm justificado muitas vezes que projetos sem a menor consistência sejam implementados nestas “áreas de risco”, destinando-se a catequizar a barbárie ou a acolher os desamparados sob os braços. Tais projetos geram resultados duvidáveis (quando os geram) e muitas vezes se dissolvem ao longo da sua realização, o que me parece ser um resultado de ações frágeis baseadas em concepções errôneas. Deste modo, esperava no referido filme um pouquinho de “mais do mesmo”. Mas não foi por aí. Apesar de ser uma produção da Globo Filmes e a gente saber que ele vai de carona no filão de explorar as favelas para ganhar louros e ouros, a proposta torna-se subversiva ao integrar moradores de comunidades “de risco” que trazem com eles a simbologia e a energia dos mais fracos e deixam a sua cultura falar através de seus trejeitos, de suas falas, de seus silêncios. O fragmento dirigido pelo Cadu, morador da Maré, anda colado no estereótipo, correndo o risco de multiplicar um pouco mais o lugar comum sobre as fronteiras entre comunidades e sobre o modo de ser da sua juventude. Seus atores, especialmente os guris que têm menor destaque, tomam a cena com sua espontaneidade, permitindo que a favela passe para primeiro plano, abraçando o fio condutor da história. O desfecho do episódio apresenta um fato que a gente percebe no dia-a-dia das comunidades e revela que as barreiras que dividem as periferias são mais imaginárias do que reais e que desfazê-las depende menos de fuzis do que de pipas, de bailes, de conversas. Não se trata de lirismo ingênuo, de ignorar a brutalidade da violência nestes territórios, mas talvez de pensar que há um caminho para a paz que não passa necessariamente pelos Caveirões e pelas Tropas de Elite. Há um trabalho político a ser feito – micro-político, diplomático, abraçando meninos e meninas, jovens moradores, que são os principais responsáveis pela configuração futura destas comunidades. Por último, não posso deixar de destacar o belíssimo fragmento dirigido por Luciano Vidigal, com um roteiro sensacional (produzido pela galera do Afroreggae de Parada de Lucas) – a atuação sombria e difícil do Samuel Costa Santos, o surpreendente do enredo, o inusitado do violino, os flashbacks... É uma pequena obra de arte no interior daquele todo, onde a violência – apesar de ser o fio condutor – não consegue ser mais eloqüente do que o carinho, o afeto, o humano (com todo o difícil que é ser humano). Diferentemente de outras produções que estréiam por aí...
Estamos saturados de produção cultural de baixa qualidade realizada nestes locais ou fazendo referência a eles. Não suportamos mais que as populações de comunidades e favelas sejam representadas a partir de uma relação rasa com a marginalidade e com um modo de vida pobremente ilustrado como sofrido, simples e festivo. Estes fatores têm justificado muitas vezes que projetos sem a menor consistência sejam implementados nestas “áreas de risco”, destinando-se a catequizar a barbárie ou a acolher os desamparados sob os braços. Tais projetos geram resultados duvidáveis (quando os geram) e muitas vezes se dissolvem ao longo da sua realização, o que me parece ser um resultado de ações frágeis baseadas em concepções errôneas. Deste modo, esperava no referido filme um pouquinho de “mais do mesmo”. Mas não foi por aí. Apesar de ser uma produção da Globo Filmes e a gente saber que ele vai de carona no filão de explorar as favelas para ganhar louros e ouros, a proposta torna-se subversiva ao integrar moradores de comunidades “de risco” que trazem com eles a simbologia e a energia dos mais fracos e deixam a sua cultura falar através de seus trejeitos, de suas falas, de seus silêncios. O fragmento dirigido pelo Cadu, morador da Maré, anda colado no estereótipo, correndo o risco de multiplicar um pouco mais o lugar comum sobre as fronteiras entre comunidades e sobre o modo de ser da sua juventude. Seus atores, especialmente os guris que têm menor destaque, tomam a cena com sua espontaneidade, permitindo que a favela passe para primeiro plano, abraçando o fio condutor da história. O desfecho do episódio apresenta um fato que a gente percebe no dia-a-dia das comunidades e revela que as barreiras que dividem as periferias são mais imaginárias do que reais e que desfazê-las depende menos de fuzis do que de pipas, de bailes, de conversas. Não se trata de lirismo ingênuo, de ignorar a brutalidade da violência nestes territórios, mas talvez de pensar que há um caminho para a paz que não passa necessariamente pelos Caveirões e pelas Tropas de Elite. Há um trabalho político a ser feito – micro-político, diplomático, abraçando meninos e meninas, jovens moradores, que são os principais responsáveis pela configuração futura destas comunidades. Por último, não posso deixar de destacar o belíssimo fragmento dirigido por Luciano Vidigal, com um roteiro sensacional (produzido pela galera do Afroreggae de Parada de Lucas) – a atuação sombria e difícil do Samuel Costa Santos, o surpreendente do enredo, o inusitado do violino, os flashbacks... É uma pequena obra de arte no interior daquele todo, onde a violência – apesar de ser o fio condutor – não consegue ser mais eloqüente do que o carinho, o afeto, o humano (com todo o difícil que é ser humano). Diferentemente de outras produções que estréiam por aí...
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Em seu novo filme, Christopher Nolan está mais para Spielberg do que para Kubrick

Inception não faz jus à publicidade em torno do seu lançamento no Brasil, certamente ecoando sua recepção no exterior, anunciando se tratar de um filme onde se dá uma combinação interessante entre cinema de arte e entretenimento. A mega produção de Christopher Nolan tem o mérito indubitável de forjar um universo de som e luz que mantém o espectador desperto em seu assento, flanando por belas paisagens e por divertidas histórias. A ingestão da pipoca fica em segundo plano já que, desde o início, percebe-se a pretensa complexidade do roteiro e a sucessão acelerada de suas peripécias. O entretenimento é, deste modo, garantido. Não há, entretanto, nada na produção que permita considerá-la cinema de arte. Sua representação de tempo e espaço é absolutamente banal – o que espanta, quando se considera que a principal matéria do filme são os sonhos. Nada de especial na interpretação dos personagens – muito do cenho franzido de Leonardo DiCaprio e um Michael Caine interessante, que promete, mas que não desempenha nenhuma função relevante. E o mais sério: nada na ideologia do filme que refrigere nossas noções pré-estabelecidas e que alimente sentimentos de inovação e/ou de liberdade. Toda a ação do filme é movida pela ambição desmedida de um empresário japonês e pela busca de um homem pelos filhos – em nenhum momento, estes objetivos são questionáveis, comprovando a tendência capital dos blockbusters: reafirmar velhos valores arraigados em nossa sociedade ocidental como família, pátria, trabalho e dinheiro.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
PROVA DE MORTE

Death Proof é o filme dirigido por Quentin Tarantino em 2007, mas que só apareceu nos cinemas brasileiros recentemente, 01 ano após a exibição de Bastardos Inglórios, de 2009. Tarantino me parece ter chegado ao apogeu de um estilo muito próprio, onde a imperfeição é uma meta e onde o politicamente errado é um estandarte. Colidem deste modo: um roteiro absolutamente estúpido e trivial e uma produção com um preciosismo técnico absurdo. Nunca o mal-feito foi antes tão elaborado e tantos recursos são convidados a expressar absolutamente nada. O código de ética que orienta a ira dos personagens de Kill Bill, representado por personagens como Pai Mae e pelos emblemáticos duelos do Japão e da seqüência final do filme, não têm qualquer valor aqui. Death Proof é mais do que a exploração da violência como linguagem, é o reconhecimento de um impasse pós-moderno: a ausência de valores morais e a falta de sentimentos de culpa e de necessidade com relação a esta falta.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
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