sábado, 23 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2

A princípio, havia comentado no Facebook que estava chocado com o trailer de Tropa de Elite 2 apresentado na tevê aberta por este conter cenas de violência nas favelas do Rio e por perceber a mobilização da platéia para prestigiar este espetáculo, refletido nas filas quilométricas nas portas dos cinemas. Há uma semana atrás, fui assistir à produção e percebi que não há muitas cenas explorando este filão. A maioria dos diálogos enfoca a burocracia e a podridão nos bastidores da polícia, da política e da segurança pública da cidade. Uma forma quase didática de mostrar que o sofrimento das comunidades pobres resulta dos interesses dos políticos de carreira e do poder do capital. Mostrou que os traficantes do Comando Vermelho, do Terceiro Comando e dos Amigos dos Amigos são ladrões de galinha perto dos milicianos e dos interesses eleitoreiros. Tocou de forma muito tímida no envolvimento da grande e da média mídia com essas questões, a gente sabe por que, né? Ta lá a logomarca da Globo Filmes estampada. Hoje andava pela Maré e vi camelôs vendendo DVDs do filme. Minha pergunta é: será que os moradores de áreas atingidas pela violência aproveitarão as informações transmitidas pelo filme para cobrar devidamente das autoridades responsáveis, nos momentos devidos (este é um momento devido!), a resolução deste problema? Será que não continuarão a fortalecer o pensamento de que a melhoria das suas condições de vida só pode resultar de uma Grande Boa Vontade Particular, situada em Brasília ou no Céu? E os espectadores de classe média, que só se enfurecem com a bandalheira porque pensam no risco de vida que correm ao sair da balada, no celular, no carro ou na vida que podem perder em qualquer esquina? É neste sentido que lanço minha crítica ao filme. Não mais pelo viés que imaginava – pela exploração e pela espetacularização do sofrimento alheio, mas por fazer um falso filme “politicamente correto”. A política, se há alguma política ali, é hierárquica, fala de cima, de um lugar potencialmente mais elevado, de onde se vê a verdade – ora, este lugar, é o lugar de onde a mídia buzina em nossos ouvidos, todos os dias. É muito divertido ver o soco que o Capitão Nascimento lança na cara de um deputado. É muito empolgante vê-lo falar dentro da Assembléia Legislativa de forma tão direta. Mas não seria tudo isto uma espetacularização de tudo aquilo a que já nos acostumamos e que engolimos todos os dias junto com nosso café da manhã e nosso jantar? Aquele soco e aquele discurso descarregam nossa revolta, mas, ao sairmos do cinema, a sensação é a de que “o inimigo agora é outro”, muito maior, e que nós não podemos enfrentá-lo. Bacana, agora todo mundo sabe que por trás dos fuzis e das balas perdidas existem homens de gravata falando em microfones ou na frente de câmeras. O filme mostrou isto. O poder da arte de tirar as pessoas do seu lugar resta menosprezado – menosprezada a capacidade do cinema de estimular revoluções...

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