sábado, 10 de abril de 2010


Meu antigo grupo, a Cia Asa-Delta, composto atualmente por 04 ou 06 adolescentes e jovens da Rocinha (bairro do Rio que tem a média de 2 salários mínimos por trabalhador)foi procurado pelo Rotary Club de São Conrado (bairro do Rio que tem a média de 38 salários mínimos por trabalhador). O pessoal do asfalto quer da gente uma peça sobre um tema específico para ser apresentado em escolas da região. É uma nova oportunidade de fazer o que a gente sabe bem: falar de assuntos da ordem do dia para crianças e adolescentes que só querem saber de funk, msn e sei lá que mais. Algo que muitos adultos desejam, mas que não sabem como. Morri de orgulho ao saber que meus jovens tinham ido a uma reunião do Rotary e dialogado sobre a possibilidade de fazer este trabalho. Morri de orgulho quando me ligaram, me pedindo ajuda para colocar um preço em seu trabalho. Morri de orgulho quando me pediram para voltar e para trabalhar com eles. Sensação de que meu tempo na Rocinha ainda não acabou. Graças a deus! Bons trabalhos vêm por aí, eu sinto.



também a oportunidade para que eu voltasse. Sabia que não daria para ficar muito tempo longe.

Foto: Thiago Ripper
A Via Sacra da Rocinha é para mim o maior expoente da estética da favela. Produzida e encenada por moradores, tem o poder de atrair milhares de espectadores, entre gente da comunidade e gente de fora. O morro fica vaidoso neste dia porque sua grandiosidade é percorrida por pessoas que nunca se aventuram por ali e uma das expressões mais recorrentes é: "poxa, como essa favela é grande!", vinda de diferentes direções. Eu tenho a grande honra de me sentir em casa neste lugar, de abraçar a velha e a jovem guarda e ter uma grande satisfação em ver a comunidade em foco. É um mundaréu de jovens atores, muitos deles já tendo passado pelas minhas salas de ensaio. Conheço seus sonhos de fama e sei a dimensão de seus talentos. Encontro um fotógrafo amigo meu e uma artista e produtora que conheci recentemente, gente de outras paradas, o que me leva a crer que este é um dia especial porque novos olhares recaem sobre estes meninos, meninas, mulheres e homens, personagens bíblicos que despontam em sacadas, becos, portas de botecos, bocas de fumo. Em um momento iluminado, Maria Madalena é apedrejada diante de uma porta de comércio pixada: ADA É NÓS! Quantas vezes, durante o ano, essa cena deve se repetir ali, e em outros pontos da favela, sem que ninguém note. O som é tão ruim que a gente não consegue ouvir nada que os atores falam. Mesmo assim o carro de som corre ligeiro pela Estrada da Gávea e a multidão corre atrás, numa mistura de carnaval de Salvador com teatro medieval. O grande símbolo da noite, o Crucificado, é um símbolo vazio - este não é um espetáculo de fé. A grande estrela é a Rocinha, puta velha, de pernas arreganhadas, com sua prole morena, sua beleza e seu horror, deflorada por milhões. As encenações da paixão de Cristo deviam levar os fiéis às lágrimas, em outros tempos, em outras terras. Aqui, agora, ela me faz pensar na morte de deus, na satisfação imediata dos desejos e na esperança de símbolos e de rituais que ressuscitem a crença em alguma coisa.