quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Dei um tempo

Eu dei um tempo com a Cia. Asa-Delta. Não estou mais subindo a Rocinha. Não coordeno mais o grupo. Não ensaio mais. Levei muito tempo para tomar esta atitude porque sempre soube que sofreria muito com ela. Sempre soube também que a minha ausência é uma ameaça para a existência do grupo. Por outro lado, tenho a suspeita (e posso estar sendo ingênuo, mas como fazer teatro sem ser um pouco ingênuo?) de que, se os jovens e adolescentes se mantiverem unidos, em atividade, se tornarem-se verdadeiros atores e mostrarem a mim, à comunidade e à cidade que querem mesmo fazer teatro, que têm algo para oferecer ao público, que são capazes de se organizar, acredito que, se isso ocorrer, então eles terão dado um grande passo e não importa que o teatro que eles fizerem seja algo rudimentar, estereotipado e caótico, ele será um produto mais legítimo e, talvez, a partir daí um grande trabalho possa ser feito. Tenho este sonho de voltar um dia aos ensaios, a pedido dos jovens, a convite dos jovens, de voltar porque eles acreditam que existe algo para ser feito, algo entre o desejo deles e a minha vocação. Deixo o grupo num momento em que conseguíamos fazer ensaios cada vez mais intensos e inspirados. Depois de uma oficina no Seminário Grotowski, ano passado, voltei a acreditar no poder da disciplina e da concentração para o trabalho do ator e vinha batendo forte na tecla da respiração, da escuta, de construir um clima “quente” para que o trabalho criativo pudesse de fato acontecer. Largo esboçada uma das cenas mais fortes e harmoniosas que já produzimos – a do sepultamento de Etéocles, no início de Antígona. Em outros tempos, o meu desejo de terminar esta cena, de mostrar este espetáculo, me faria continuar apesar de todas as dificuldades, apesar dos atores que faltam aos ensaios para cuidar de outros assuntos. Talvez por isso todas as minhas experiências como encenador tenham ficado aquém das expectativas (pelas concessões) e o teatro tenha continuado a se mostrar uma aventura impossível de ser vivida. Escolhi agir com maior frieza desta vez, contrariando a minha satisfação momentânea, e buscando fazer deste trabalho menos um lazer e mais um projeto. Neste momento, cabe a alguns dos seus beneficiários mais diretos decidir se ele terá continuidade.