A primeira impressão que tenho com relação a teatro remonta ao tempo em que eu nem sabia o que era teatro. Eu só conhecia televisão e o teatro era, para mim, um primo pobre e sem graça das novelas das duas, das seis, das sete e das oito. Um dia enfim me pediram que escrevesse uma peça (eu escrevia muito bem). Pensei: tudo bem, vá lá, mas é só um treino para o que eu vou fazer depois, quando estiver escrevendo para a televisão. O teatro era uma coisa rústica e grosseira, suja, maltrapilha – perto do que podia ser a tevê ou o cinema. Eu acho que a beleza do teatro para mim continua sendo essa coisa reles que um dia me encontrou pelo caminho. E acho que, todas as vezes que vejo uma produção muito sofisticada, eu fico querendo compará-la com aquela novela pobre e provinciana que eu ensaiava nas garagens e apresentava nos porões e fundos de quintais de Minas (no fundo, gosto mesmo daquelas peças). O teatro fica sendo para mim então um sinônimo do esforço desesperado para se expressar a qualquer custo, independente dos meios que se tem à mão. O que me fascina no teatro é a disposição das criaturas para viverem o imaginário, acreditando nele, ou para viverem a própria vida de uma forma imaginariamente intensa, fazer a vida ser justa com o sonho. Em determinados momentos, muito raros, nos meus ensaios (mais raro ainda nos dos outros), eu vejo essa coisa bonita que é o teatro passar. Desse esforço imenso de músculos, neurônios e sei lá o que mais, eu vejo aparecer um fantasma grotesco, miserável, mas que fala com uma voz límpida, uma voz sem ruído, que comunica. É meio que uma entidade mesmo, nasce do nosso esforço doido, do desejo de fazer Pulp Fiction’s com papelão e grude.
Eu teço este pequeno prólogo para dizer que não existe crítica imparcial, que tudo parte de uma impressão (como não poderia deixar de ser) absolutamente pessoal, baseada em hábitos, crenças, afinidades e bizarrices. E também que o criticado deve se sentir livre para ignorar completamente o que foi dito, embora eu duvide que ele consiga. Kkkkkkkkkkkkkkkk. Também não me agrada esta posição de fazedor de texto, de dono da palavra – não gosto da arrogância. Não quero ser o menino bonzinho que se senta para agradar as amigas, ou talvez para que elas se surpreendam com a inteligência dele e façam elogios que vão lhe inflar o ego. Mas gosto da idéia de generosidade. Quando a gente vê que não vai ser nenhum Picasso, percebe que pode relaxar um pouco e dar fluxo às idéias juntos – já que elas não nos pertencem mesmo.
Ao dizer que não gostei do espetáculo, estou tentando fazer uma crítica inteira e racional (na medida do possível), ao invés de dizer o que achei de cada pedaço, coisa muito fácil de se fazer, mas que não leva a gente muito longe da bajulação. O fato é que fiquei extremamente emocionado em diversos momentos da peça – momentos rápidos e fugazes, em que me sensibilizou o conjunto de esforços ali reunidos, a disponibilidade e o nada que sabia que iria sentir logo mais, ao fim do espetáculo. Eu me perguntei até que ponto a minha emoção não deriva do fato de eu fazer parte da história daquelas pessoas que estavam ali na cena, de conhecê-las. E acho que muitos efeitos dos espetáculos são só para amigos. O que me parece ser um problema de explorar a própria biografia em cena e não torna-la um convite mais interessante (e desafiador) para o espectador (o espectador desconhecido, estrangeiro). É como se vocês afagassem o peixinho dourado que mora no fundo de suas almas (ou dos seus egos), sem no entanto, deixar que o espectador o veja, ou que o pegue. Acho a peça um pouco egoísta, neste sentido. Talvez seja uma impressão minha e vocês saberão, quando ouvirem comentários de desconhecidos.A peça, a meu ver, oscila o tempo todo entre o espontaneísmo e o formalismo, com a vitória final deste último. É uma peça bem feita, correta, bem comportada. As atrizes estavam deslumbrantes – contidas, frias, auto-centradas. (Provocador e irresponsável): Haveria um receio contido de levá-las um pouco além? Um medo de perder a mão e fazer um mau espetáculo? Eu acho que elas desfilariam lindamente para os infernos. Estarei sendo abstrato demais com relação a uma arte que é tão concreta? Como fazer isto que sugiro? Não sei, mas adoraria ver.
sábado, 9 de janeiro de 2010
Sobre um espetáculo de pessoas que amo (2/2)
Espetáculo bonito, mas por ser tão fixado às imagens incomoda um pouco o fato de estabelecer uma relação tão conservadora com o espaço que ocupa. Refiro-me à frontalidade, obsessivamente explorada, mas que não consegue desviar nossa atenção por tempo suficiente das vigas do telhado, da profundidade do galpão, das caixas de som dispostas no fundo da cena que dialogam mal com a projeção de uma paisagem parisiense. Como se perder na pretensa câmera lenta se aquelas caixas o tempo todo nos lembram da falsidade (da artificialidade) de tudo aquilo?
A primeira cena é muito arriscada. A idéia de videoclipe (música bonita, movimentos lentos, encontros, desencontros) oscila muito rapidamente entre o belo e o cafona e eu temo que isto não seja intencional. Como leigo, eu entendo a câmera lenta como uma técnica capaz de dissecar os contornos dos objetos e a duração real dos eventos, ou seja, de combater o estereótipo e a representação. Então por que contornos tão precisos e imagens tão prosaicas? Eu percebo esta cena, por um lado, como um impulso em direção à pintura monocromática; por outro, como um impulso em direção aos comerciais de desodorante (ou à primeira cena do filme Closer). Eu desejaria antes ver a coisa decolar em direção à primeira referência (a pintura monocromática, o não-figurativismo). Ou, talvez, em direção à segunda (o comercial de desodorante), com mais crueldade. Contra minha vontade, estou criticando por partes – é uma tendência difícil de burlar.
Não sei mais o que dizer. Queria ter visto menos belas imagens e mais mistérios. O achado das cartas é, sem dúvidas, interessantíssimo. Tão interessante que mereceria engolir o espetáculo todo, uma vez que abre a porta para que a vida (o que realmente importa nela) entre na sala. Queria ter pensado menos em Bob Wilson e outros figurões das artes e ouvido com mais pureza a voz tremida de uma diretora jovem, ansiosa e insegura, cheia de ideais e de questões. Mas novamente estou de volta com minhas expectativas e também existe um teatro enorme que se faz por aí que é aquele que não dá a mínima para mim.
A primeira cena é muito arriscada. A idéia de videoclipe (música bonita, movimentos lentos, encontros, desencontros) oscila muito rapidamente entre o belo e o cafona e eu temo que isto não seja intencional. Como leigo, eu entendo a câmera lenta como uma técnica capaz de dissecar os contornos dos objetos e a duração real dos eventos, ou seja, de combater o estereótipo e a representação. Então por que contornos tão precisos e imagens tão prosaicas? Eu percebo esta cena, por um lado, como um impulso em direção à pintura monocromática; por outro, como um impulso em direção aos comerciais de desodorante (ou à primeira cena do filme Closer). Eu desejaria antes ver a coisa decolar em direção à primeira referência (a pintura monocromática, o não-figurativismo). Ou, talvez, em direção à segunda (o comercial de desodorante), com mais crueldade. Contra minha vontade, estou criticando por partes – é uma tendência difícil de burlar.
Não sei mais o que dizer. Queria ter visto menos belas imagens e mais mistérios. O achado das cartas é, sem dúvidas, interessantíssimo. Tão interessante que mereceria engolir o espetáculo todo, uma vez que abre a porta para que a vida (o que realmente importa nela) entre na sala. Queria ter pensado menos em Bob Wilson e outros figurões das artes e ouvido com mais pureza a voz tremida de uma diretora jovem, ansiosa e insegura, cheia de ideais e de questões. Mas novamente estou de volta com minhas expectativas e também existe um teatro enorme que se faz por aí que é aquele que não dá a mínima para mim.
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