sábado, 9 de janeiro de 2010

Sobre um espetáculo de pessoas que amo (2/2)

Espetáculo bonito, mas por ser tão fixado às imagens incomoda um pouco o fato de estabelecer uma relação tão conservadora com o espaço que ocupa. Refiro-me à frontalidade, obsessivamente explorada, mas que não consegue desviar nossa atenção por tempo suficiente das vigas do telhado, da profundidade do galpão, das caixas de som dispostas no fundo da cena que dialogam mal com a projeção de uma paisagem parisiense. Como se perder na pretensa câmera lenta se aquelas caixas o tempo todo nos lembram da falsidade (da artificialidade) de tudo aquilo?

A primeira cena é muito arriscada. A idéia de videoclipe (música bonita, movimentos lentos, encontros, desencontros) oscila muito rapidamente entre o belo e o cafona e eu temo que isto não seja intencional. Como leigo, eu entendo a câmera lenta como uma técnica capaz de dissecar os contornos dos objetos e a duração real dos eventos, ou seja, de combater o estereótipo e a representação. Então por que contornos tão precisos e imagens tão prosaicas? Eu percebo esta cena, por um lado, como um impulso em direção à pintura monocromática; por outro, como um impulso em direção aos comerciais de desodorante (ou à primeira cena do filme Closer). Eu desejaria antes ver a coisa decolar em direção à primeira referência (a pintura monocromática, o não-figurativismo). Ou, talvez, em direção à segunda (o comercial de desodorante), com mais crueldade. Contra minha vontade, estou criticando por partes – é uma tendência difícil de burlar.

Não sei mais o que dizer. Queria ter visto menos belas imagens e mais mistérios. O achado das cartas é, sem dúvidas, interessantíssimo. Tão interessante que mereceria engolir o espetáculo todo, uma vez que abre a porta para que a vida (o que realmente importa nela) entre na sala. Queria ter pensado menos em Bob Wilson e outros figurões das artes e ouvido com mais pureza a voz tremida de uma diretora jovem, ansiosa e insegura, cheia de ideais e de questões. Mas novamente estou de volta com minhas expectativas e também existe um teatro enorme que se faz por aí que é aquele que não dá a mínima para mim.

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