terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O novo espetáculo do Teatro da Laje (2/2)

Mais uma vez, é pelo aspecto acima mencionado que prima o teatro daquele grupo. Veríssimo descobriu um modo seu de fazer teatro, um modo dos meninos da Vila Cruzeiro. Sem pretensões de ser político, esse teatro acaba fazendo crítica social porque concede um espaço imenso para que o modo de vida adolescente e o modo de vida suburbano se estabeleçam. Naquele meu primeiro contato, percebi um trabalho mais heterogêneo, mais complexo e mais interessante que o do consagrado Nós do Morro, por exemplo. Ao contrário do grupo do Vidigal, o Teatro da Laje desenvolvia um teatro com um acabamento técnico precioso, sem ceder aos maneirismos do teatro comercial. O fascínio que o seu trabalho exerce brota do fato de que não há uma obrigação de se fazer teatro “como no asfalto”. Há uma obrigação de desenvolver formas novas de viver, de estar no mundo, de dialogar com o outro. É uma nova forma de estar na Penha, de estar na escola, de estar adolescente, contrariando a lógica do ensino, a lógica da vida na periferia, e, talvez (por que não?), a lógica da cidade. Foi esse sopro que me agitou em 2006 e que me fez montar a atual Cia. De Teatro Asa-Delta, com meninos e meninas da Rocinha.
Veríssimo critica, no espetáculo e em seu discurso, os projetos sociais pré-fabricados. Seu trabalho se diferencia, a meu ver, de tais projetos porque ele não tem objetivos filantrópicos – o fato de ele estar na Vila Cruzeiro é uma mera casualidade. Talvez por se estabelecer mais longe das afetações do teatro comercial da zona sul, ele tenha encontrado, com maior facilidade, a vida, por detrás das marcações de cena. Se o termo “projeto social” não estivesse tão conspurcado, esta seria uma boa definição. O Teatro da Laje encontra, nos escombros desta arte milenar, uma outra forma de estar junto, uma ética de conviver. Na tarde de sábado, fomos convidados a testemunhar este processo. Quando afirmo que o espectador poderia ter sido mais envolvido, de forma alguma, quero expressar que falte técnica ao trabalho – a técnica nele não se nota, ela está incorporada no modo como os atores jogam. Sinto que talvez fosse possível tornar o espectador um pouco mais jovem, um pouco mais leve, um pouco menos espectador e, deste modo, anarquizar um pouco mais a lógica mecanizada dos espetáculos comerciais, do ver e do ser visto, do dizer e do ouvir.Desde 2006, não tive notícias de que o Teatro da Laje tenha se apresentado em outros espaços tradicionais do circuito cultural. Seu habitat tem sido a periferia, em todos os sentidos, e sua existência tem caráter de resistência. Acredito que este acontecimento tão especial poderia ser ainda mais forte se concedesse aos lábios sedentos do espectador o cálice da vida com que os atores se nutrem te forma tão esplendorosa, durante a peça.

4 comentários:

  1. Meu querido Vicente,
    é nessas horas que sentimos como está presente a voz de Maiakóvski quando imprecava contra "a miséria da oficina das palavras". Ainda seguindo na trila do poeta, eu pergunto: onde encontrar e a que tarifa as palavras que mirem e matem de uma vez, que dêem conta de traduzir todo o rebuliço que seu texto provocou em minha alma? Infelizmente elas não existem. Pelo menos não na minha boca agora! Você captou com uma sensibilidade, uma argúcia e uma delicadeza raras o propósito de nosso teatro. Até mesmo o limite de nosso novo espetáculo, "A viagem da Vila Cruzeiro à Canaã de Ipanema numa página de Orkut", você soube captar com uma percuciência incomum. Com efeito, ao tentarmos evitar a banalidade em que se transformou a idéia de inclusão da platéia no espetáculo e assim escapar do formalismo, terminamos por não perceber que o espetáculo em si pedia isso. Emociounou-me particularmente a percepção que você demonstrou da diferença entre nossa proposta estética e a de outros grupos de teatro vindos da periferia. Já vi e ouvi alguns que atuam nesse campo dizerem algo parecido com o que nós dizemos: temos que fazer teatro e não projeto social. A bifurcação entre nossos projetos começa, porém, quando essas pessoas dizem que o teatro feito na periferia tem que se impor pela "qualidade". Recusamos esse termo antes de tudo por considerá-lo demasiado vago e impreciso e também por pensarmos que aí pode estar inoculado o velho veneno do etnocentrismo. Afinal o que serve de medida, referência ou padrão a essas pessoas para definirem se um teatro é ou não de "qualidade"? O teatro que é feito no "asfalto"? De nossa parte preferimos dizer que o teatro que é feito na periferia deve, não apesar de ser da periferia, mas justamente por sê-lo, DISCUTIR teatro enquanto FAZ teatro; tratá-lo como LINGUAGEM; contribuir, através de nossas realizações cênicas, para por o teatro em movimento, problematizá-lo de ponta a ponta, torná-lo mais condizente com a sensibilidade contemporânea.

    ResponderExcluir
  2. Apesar de não ter tido ainda o prazer de assistir o novo espetáculo da Laje, acompanho o trabalho do grupo há tempo suficiente pra entender a qualidade da discussão que ele provoca. E me refiro à qualidade, Veríssimo, como produção de pensamento (coisa rara na produção artística que anda por aí). Espero que a temporada se estenda e que tenha a oportunidade de vê-los daqui a pouco. Grata pelo texto Vicente!

    ResponderExcluir
  3. Vicente, querido Vicente, que alegria poder contar com suas impressões a respeito do que se faz, do que não se faz e do que se tenta ou do que deveríamos tentar fazer em teatro. Obrigado, o blog está ótimo, impressão costumeira de tudo o que vejo você fazer! queremos mais!!!

    ResponderExcluir
  4. Vicente,

    Fui apresetada a você pelo texto que me foi encaminhado. E como o texto diz de quem o escreve, pude perceber a seriedade do seu compromisso com a causa dos que resistem, existindo e insistindo em viver e criar fora
    dos parâmetros legitimados. Tenho a certeza de que você e Veríssimo vão continuar na luta para que a arte com jeito e gosto de vida, na Vila Cruzeiro e em qualquer outra periferia, possa crescer e aparecer sem fazer concessões
    à ordem oficial.
    Edwiges

    ResponderExcluir