Nós encenamos peças diferentes. Foi o que ouvi de mim mesmo, logo depois de um daqueles suspiros profundos, cheios de ódio, que vinham se tornando cada vez mais comuns nos dois últimos anos, desde que eu fundara aquele grupo de teatro em uma favela carioca.
Fiquei surpreso com a clareza e com a convicção destas palavras, saídas de mim sem o menor esforço e sem que a vontade ou a covardia tivessem reciclado os expurgos de minha consciência.
Orgulhoso de meu mote, procurei elaborar em cima dele, sem que o resultado significasse grande coisa.
Nós encenamos peças diferentes (repeti). Embora a gente esteja confinado num único cenário - este pano de fundo pintado, ou a totalidade desta sala de ensaio... Embora a gente se misture por aqui, eu sinta o cheiro do teu chulé e a temperatura de tua pele... Embora a gente conheça a mesma história, se oriente pelas mesmas réplicas, se encontre sempre nas mesmas ações e busque se unir ou se contradizer no ritmo, nenhum de nós sabe o nome ou sequer o tema da peça que o outro encena. E é por isso que tudo aqui está errado. É por isso que isso aqui nunca vai dar certo. Ser uma máquina de dinheiro e status. Qual é a peça que você vem representando? Qual é a peça que você vai botar em cartaz em um mês? Fale comigo e veja os meus olhos se desviando para outros assuntos. Ouvindo as minhas próprias palavras. Mesmo que eu esteja em silêncio. Isso nunca vai dar certo.
Eu tinha dado um suspiro, em meio a um daqueles insuportáveis momentos em que os atores abandonam a rudimentar lógica psico-física de suas personagens para se desentenderem em torno de algum detalhe sem graça e para fazer emergir toda a sorte de vaidades e afetações que só um bando de atores reunidos é capaz de catalisar.
Este grupo de atores era, inequivocadamente, o meu grupo de atores. Não havia como negar. E eles vinham se especializando na arte de interpretar os suspiros, os olhares e as rugas que antecediam meus berros, meus sermões, minhas teatrais interrupções dos ensaios, minhas saídas. Esta era a minha peça (que me orgulhava, que me dava medo, me fazia seguir adiante, preparar os ensaios, escolher as músicas, voltar todos os dias, não desistir, me angustiava, me surpreendia, me excitava, me ensinava, fazia a morte ter diferentes sentidos - todos eles inúteis). Eu me frustrava por não saber o que é que transcendia a minha peça individual e acometia os demais.
Vinte e cinco olhinhos pretos eram todos reflexo para minha luz (um dos treze atores era vesgo). Eu nunca soube que espécie de imagem eles faziam de mim, mas nos últimos tempos vinha me surpreendendo muito uma concentração muito forte, sentida pelo menos umas cinco vezes, em torno da minha voz. Como bom ator que eu conseguia às vezes ser, eu não ouvia minha voz, apenas a sua reverberação. E esse som harmonizava com a freqüência nervosa dos atores concentrados, me enchia de glória e me fazia ignorar a fome porque eu entendia que estava tocando em algo para além de mim. Era a vida deles que eu tocava? Eu era um ator eficiente demais, acreditando em seu papel? Ou será que todas essas coisas juntas? Eu sempre tive um gosto estranho e sempre tive idéias muito estranhas na cabeça também. Então, diante daquele público tão jovem, inocente e despreparado para as maldades do mundo, eu sabia que não podia expôr completamente meus gostos e minhas idéias. Mas, naquele momento, em que eu fazia convergir o ritmo de todas as respirações, eu estava falando de coisas muito práticas e tangíveis, a partir de uma ética que, até então, eu não sabia possuir (mas o som da minha voz era tão convincente!) e que nunca me presumira capaz de defender publicamente (como simpatizante do Alberto Caeiro que eu era). Mas, ao final do dia, especialmente depois de um daqueles sermões, em que a minha voz assumia um tom viril, eu sempre lançava um olhar para o grande espelho do fundo da sala e ia me aproximando, gradualmente. A imagem que eu via me desconcertava, mas me agradava sempre.
Isso nunca vai dar certo. Mas vamos continuar, enquanto não há outro jeito.
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