Ontem à tarde – sábado - fui à Vila da Penha, assistir à estréia da nova peça do Teatro da Laje, apresentada no pátio de uma escola pública. Este é um cenário elementar porque o grupo, até onde eu sei, é um desdobramento do trabalho do seu diretor, Antônio Veríssimo, como professor de teatro da rede pública de ensino. Diferente do que comumente se encontra, por ocasião da estréia de algum espetáculo de teatro, o que encontramos foi uma escola tomada por alguns cidadãos – eletricistas efetuando alguns reparos, alunos de algum curso extraordinário e, lá no fundo, um grupo de moleques suados, uma rotunda preta e algumas cadeiras brancas de lata. Enquanto aguardávamos a chegada de alguns convidados vindos da zona sul – estiveram presentes o diretor de teatro Moacir Chaves e o sub-secretário municipal de cultura -, os moleques se agitavam em torno de uma brincadeira barulhenta e, nem de longe, se pareciam com um grupo de atores prestes a entrar em cena.
Quando o início do espetáculo foi anunciado, houve um silêncio e uma rápida organização atrás da rotunda. A seguir, era como se eles continuassem a brincadeira que estavam fazendo antes, mas agora mais conscientes da presença dos voyeurs. A odisséia dos moradores do subúrbio até às praias da zona sul é relacionada à peregrinação do povo hebreu e narrada por meio de fotos que serão descarregadas numa página do Orkut. Dramaturgia esperta e jocosa, condizente com a espontaneidade e com o talento que os atores exibem. A peça é uma brincadeira de que eles participam e a sensação que me invade é que, durante aquele tempo de espetáculo, a molecada exibe com maior intensidade o lado alegre e leve de ser eles mesmos, demandando que o espectador se abra (se anule?) para presenciar um coletivo em ação. Aí está, a meu ver, o ponto forte e o ponto fraco deste produto. Existem esforços e acenos para incluir mais efetivamente o espectador na partida, mas a peça resulta, ainda que muito bem jogada, jogada preponderantemente entre os atores.
Tive o prazer de conhecer o Teatro da Laje, logo que cheguei ao Rio de Janeiro, em 2006. Assisti a uma versão de Romeu e Julieta apresentada no Espaço Cultural Sérgio Porto e, para além, de todos os estereótipos das releituras de clássicos universais sob o prisma da periferia violenta, o espetáculo teve, para mim, o status de um acontecimento cênico. O bando de atores muito jovens tinha como figurino as tradicionais camisetas das escolas municipais do Rio, vinha da mais famigerada favela da cidade (a Vila Cruzeiro) e o teatro deles tinha o sopro de vitalidade que faltava nos espetáculos velhos e cafonas que eu tinha visto nas outras salas da cidade. O teatro deles é o contrário deste teatro “sofisticado”, que tanto se faz na zona sul, deste teatro mecânico e especializado, que tem sido, nas últimas décadas, a causa mortis do próprio teatro. Além disto, a vitalidade destes jovens tornava-se ainda mais exuberante por estar canalizada através de um trabalho primoroso de direção – plasticidade, intensidade, ritmo bem pontuado.
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