Foto: Thiago Ripper
A Via Sacra da Rocinha é para mim o maior expoente da estética da favela. Produzida e encenada por moradores, tem o poder de atrair milhares de espectadores, entre gente da comunidade e gente de fora. O morro fica vaidoso neste dia porque sua grandiosidade é percorrida por pessoas que nunca se aventuram por ali e uma das expressões mais recorrentes é: "poxa, como essa favela é grande!", vinda de diferentes direções. Eu tenho a grande honra de me sentir em casa neste lugar, de abraçar a velha e a jovem guarda e ter uma grande satisfação em ver a comunidade em foco. É um mundaréu de jovens atores, muitos deles já tendo passado pelas minhas salas de ensaio. Conheço seus sonhos de fama e sei a dimensão de seus talentos. Encontro um fotógrafo amigo meu e uma artista e produtora que conheci recentemente, gente de outras paradas, o que me leva a crer que este é um dia especial porque novos olhares recaem sobre estes meninos, meninas, mulheres e homens, personagens bíblicos que despontam em sacadas, becos, portas de botecos, bocas de fumo. Em um momento iluminado, Maria Madalena é apedrejada diante de uma porta de comércio pixada: ADA É NÓS! Quantas vezes, durante o ano, essa cena deve se repetir ali, e em outros pontos da favela, sem que ninguém note. O som é tão ruim que a gente não consegue ouvir nada que os atores falam. Mesmo assim o carro de som corre ligeiro pela Estrada da Gávea e a multidão corre atrás, numa mistura de carnaval de Salvador com teatro medieval. O grande símbolo da noite, o Crucificado, é um símbolo vazio - este não é um espetáculo de fé. A grande estrela é a Rocinha, puta velha, de pernas arreganhadas, com sua prole morena, sua beleza e seu horror, deflorada por milhões. As encenações da paixão de Cristo deviam levar os fiéis às lágrimas, em outros tempos, em outras terras. Aqui, agora, ela me faz pensar na morte de deus, na satisfação imediata dos desejos e na esperança de símbolos e de rituais que ressuscitem a crença em alguma coisa.

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