Contrariamente ao que eu esperava, o filme 5 X Favela, a que só fui assistir ontem, falou-me de uma forma especial sobre o universo das comunidades do Rio de Janeiro, universo este em que tenho me embrenhado há 05 anos e que ainda me parece tão misterioso e especial quanto a primeira vez em que eu fui convidado a invadi-lo.
Estamos saturados de produção cultural de baixa qualidade realizada nestes locais ou fazendo referência a eles. Não suportamos mais que as populações de comunidades e favelas sejam representadas a partir de uma relação rasa com a marginalidade e com um modo de vida pobremente ilustrado como sofrido, simples e festivo. Estes fatores têm justificado muitas vezes que projetos sem a menor consistência sejam implementados nestas “áreas de risco”, destinando-se a catequizar a barbárie ou a acolher os desamparados sob os braços. Tais projetos geram resultados duvidáveis (quando os geram) e muitas vezes se dissolvem ao longo da sua realização, o que me parece ser um resultado de ações frágeis baseadas em concepções errôneas. Deste modo, esperava no referido filme um pouquinho de “mais do mesmo”. Mas não foi por aí. Apesar de ser uma produção da Globo Filmes e a gente saber que ele vai de carona no filão de explorar as favelas para ganhar louros e ouros, a proposta torna-se subversiva ao integrar moradores de comunidades “de risco” que trazem com eles a simbologia e a energia dos mais fracos e deixam a sua cultura falar através de seus trejeitos, de suas falas, de seus silêncios. O fragmento dirigido pelo Cadu, morador da Maré, anda colado no estereótipo, correndo o risco de multiplicar um pouco mais o lugar comum sobre as fronteiras entre comunidades e sobre o modo de ser da sua juventude. Seus atores, especialmente os guris que têm menor destaque, tomam a cena com sua espontaneidade, permitindo que a favela passe para primeiro plano, abraçando o fio condutor da história. O desfecho do episódio apresenta um fato que a gente percebe no dia-a-dia das comunidades e revela que as barreiras que dividem as periferias são mais imaginárias do que reais e que desfazê-las depende menos de fuzis do que de pipas, de bailes, de conversas. Não se trata de lirismo ingênuo, de ignorar a brutalidade da violência nestes territórios, mas talvez de pensar que há um caminho para a paz que não passa necessariamente pelos Caveirões e pelas Tropas de Elite. Há um trabalho político a ser feito – micro-político, diplomático, abraçando meninos e meninas, jovens moradores, que são os principais responsáveis pela configuração futura destas comunidades. Por último, não posso deixar de destacar o belíssimo fragmento dirigido por Luciano Vidigal, com um roteiro sensacional (produzido pela galera do Afroreggae de Parada de Lucas) – a atuação sombria e difícil do Samuel Costa Santos, o surpreendente do enredo, o inusitado do violino, os flashbacks... É uma pequena obra de arte no interior daquele todo, onde a violência – apesar de ser o fio condutor – não consegue ser mais eloqüente do que o carinho, o afeto, o humano (com todo o difícil que é ser humano). Diferentemente de outras produções que estréiam por aí...
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Olá Vicente! Fiz questão de vir ler o seu texto para saber como vc apreendeu o filme.Também compartilho desse cotidiano da favela, onde realizo trabalho e percorro por muitas delas.
ResponderExcluirO filme 5x favela, simplesmente coloca em foco uma dinâmica que não é conhecida, além da violência, e que infelizmente não é valorizada na sua diferença. Assim como "aqui", "lá" seus atores sociais passam por seus conflitos e alegrias, onde só os que circulam tem acesso a essas experiências. Adorei o filme pela exploração desse olhar, que para mim é riquíssimo em autenticidade e de extrema valia. Essa é a vida da favela. Abços Carolina Carvão.
Olá querido,
ResponderExcluirNão tenho a intenção de ser didática. Mas é evidente que a pobreza neste país tem cor. Ela está representada por uma maioria, não incluída no processo de desenvolvimento econômico deste país. É o refugo da elite escravocrata e alguns herdeiros por humanidade [em casos raros] ou por interesses pessoais [promoção] adota "seus pobres ou seus pretos". Nada disso é declarado, pois custamos, ainda, em assumir tais questões em nosso cotidiano. Em sermos segregacionistas, preconceituosos, ou intolerantes.
Claros ou escuros, temos uma marca. Estamos marcados como inferiores. Nosso desafio, o maior de todos não é enfrentarmos o racismo da elite branca, herdeira do passado escravocrata. Nosso maior desafio, que é o nosso maior pesadelo, é aceitarmos o processo secular de miscigenação como um projeto de branquiamento da nação. Aceitarmos como negros e mestiços que somos nossa introjeção da branquitude [do desejo não revelado em ser superior também], em sermos seres portadores de uma declarada cultura universal.
Estes conceitos ainda estão em gestão na minha mente.
E...Têm muitos "ês" Mas sei que 5xFavela, são cinco séculos Favela. Cinco séculos de exílio forçado. E sabemos que nenhuma alegoria [folclorização] vai tirar de nós a verdade de nossa alegrias e angústias, a verdade o sorriso dos seus alunos-atores, nas fotos postadas em seu blog.
Por favor, siga com a escrita.Quero me comunicar contigo.
Caro quilombola contemporâneo.
Luz.