sábado, 9 de janeiro de 2010

Sobre um espetáculo de pessoas que amo (1/2)

A primeira impressão que tenho com relação a teatro remonta ao tempo em que eu nem sabia o que era teatro. Eu só conhecia televisão e o teatro era, para mim, um primo pobre e sem graça das novelas das duas, das seis, das sete e das oito. Um dia enfim me pediram que escrevesse uma peça (eu escrevia muito bem). Pensei: tudo bem, vá lá, mas é só um treino para o que eu vou fazer depois, quando estiver escrevendo para a televisão. O teatro era uma coisa rústica e grosseira, suja, maltrapilha – perto do que podia ser a tevê ou o cinema. Eu acho que a beleza do teatro para mim continua sendo essa coisa reles que um dia me encontrou pelo caminho. E acho que, todas as vezes que vejo uma produção muito sofisticada, eu fico querendo compará-la com aquela novela pobre e provinciana que eu ensaiava nas garagens e apresentava nos porões e fundos de quintais de Minas (no fundo, gosto mesmo daquelas peças). O teatro fica sendo para mim então um sinônimo do esforço desesperado para se expressar a qualquer custo, independente dos meios que se tem à mão. O que me fascina no teatro é a disposição das criaturas para viverem o imaginário, acreditando nele, ou para viverem a própria vida de uma forma imaginariamente intensa, fazer a vida ser justa com o sonho. Em determinados momentos, muito raros, nos meus ensaios (mais raro ainda nos dos outros), eu vejo essa coisa bonita que é o teatro passar. Desse esforço imenso de músculos, neurônios e sei lá o que mais, eu vejo aparecer um fantasma grotesco, miserável, mas que fala com uma voz límpida, uma voz sem ruído, que comunica. É meio que uma entidade mesmo, nasce do nosso esforço doido, do desejo de fazer Pulp Fiction’s com papelão e grude.

Eu teço este pequeno prólogo para dizer que não existe crítica imparcial, que tudo parte de uma impressão (como não poderia deixar de ser) absolutamente pessoal, baseada em hábitos, crenças, afinidades e bizarrices. E também que o criticado deve se sentir livre para ignorar completamente o que foi dito, embora eu duvide que ele consiga. Kkkkkkkkkkkkkkkk. Também não me agrada esta posição de fazedor de texto, de dono da palavra – não gosto da arrogância. Não quero ser o menino bonzinho que se senta para agradar as amigas, ou talvez para que elas se surpreendam com a inteligência dele e façam elogios que vão lhe inflar o ego. Mas gosto da idéia de generosidade. Quando a gente vê que não vai ser nenhum Picasso, percebe que pode relaxar um pouco e dar fluxo às idéias juntos – já que elas não nos pertencem mesmo.

Ao dizer que não gostei do espetáculo, estou tentando fazer uma crítica inteira e racional (na medida do possível), ao invés de dizer o que achei de cada pedaço, coisa muito fácil de se fazer, mas que não leva a gente muito longe da bajulação. O fato é que fiquei extremamente emocionado em diversos momentos da peça – momentos rápidos e fugazes, em que me sensibilizou o conjunto de esforços ali reunidos, a disponibilidade e o nada que sabia que iria sentir logo mais, ao fim do espetáculo. Eu me perguntei até que ponto a minha emoção não deriva do fato de eu fazer parte da história daquelas pessoas que estavam ali na cena, de conhecê-las. E acho que muitos efeitos dos espetáculos são só para amigos. O que me parece ser um problema de explorar a própria biografia em cena e não torna-la um convite mais interessante (e desafiador) para o espectador (o espectador desconhecido, estrangeiro). É como se vocês afagassem o peixinho dourado que mora no fundo de suas almas (ou dos seus egos), sem no entanto, deixar que o espectador o veja, ou que o pegue. Acho a peça um pouco egoísta, neste sentido. Talvez seja uma impressão minha e vocês saberão, quando ouvirem comentários de desconhecidos.A peça, a meu ver, oscila o tempo todo entre o espontaneísmo e o formalismo, com a vitória final deste último. É uma peça bem feita, correta, bem comportada. As atrizes estavam deslumbrantes – contidas, frias, auto-centradas. (Provocador e irresponsável): Haveria um receio contido de levá-las um pouco além? Um medo de perder a mão e fazer um mau espetáculo? Eu acho que elas desfilariam lindamente para os infernos. Estarei sendo abstrato demais com relação a uma arte que é tão concreta? Como fazer isto que sugiro? Não sei, mas adoraria ver.

2 comentários:

  1. Puxa Vicente, pode ser que vc queira proteger as pessoas que ama (isso a gente entende!), mas por favor, diga qual é o espetáculo. Às vezes uma crítica que não é muito positiva tb pode ser uma ótima divulgação! Talvez a gente queira criticar sua crítica e ir conferir tudo o que escreveu por aqui.
    bjs
    Estou gostando muito do blog do Vicente.
    Andrea Elias

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  2. Andréa, obrigado por gostar do meu blog, eu gosto de você, obrigado pelas observações, super válidas... O espetáculo em questão estreiou em Campinas, em outubro de 2009, e se chama "Jantarei vestígios hoje e, se me permite, convidarei Verônica!", dirigido por Joice Rodrigues.

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